quarta-feira, 5 de julho de 2017

Entrevista com o Zineiro Renato Lauris Jr.

O papo de hoje é com Renato Lauris Jr., zineiro morador de Igaraçu do Tietê, no interior de São Paulo. Além disso ele está preparando uma enciclopédia do punk nacional. Leia e se ligue!
Renato Lauris Jr. - O Zineiro
Você é um apaixonado por zines, mas é também um professor da rede pública. Quando foi que surgiu esse fascínio?  E dá para utilizar essa ferramenta dentro de sala de aula?
Renato Lauris Jr. - Meu interesse por zines começou por volta de 1988/1989, numa pequena cidade do interior paulista, numa época que as informações undergrounds chegavam lentamente a estas terras, mas nunca impossibilitando termos informações, mesmo com as dificuldades. Uma época de trocas de cartas, sem existência de internet e redes sociais, nem pensar em celulares. O interesse por este tipo de publicação surgiu ao conhecer a música punk, que como deve ter acontecido com muitos foi através de fitas K7, que algum amigo ia para a capital (SP) e trazia um som, diferente daquele rock nacional e internacional que ouvíamos nas rádios. De repente apareceram os primeiros discos punks de bandas como Garotos Podres, Cólera, Ratos de Porão, coletâneas como o Ataque Sonoro. 
Mas foi através da coletânea sueca Afflicted Cries in the War Darkness, quando enviamos uma carta para a New Face Records, que nos mandou um catálogo, e ali através de compra adquirimos alguns vinis e o W. C. zine.
Este primeiro contato com um fanzine foi importante, Pois vimos que nós também podíamos fazer um, expressar nossas angústias e revoltas, tendo uma simples máquina de escrever, ou mesmo de forma manuscrita, e algumas folhas de sulfite, além de falarmos e divulgarmos as bandas que curtíamos.
Eu e um amigo, lançamos o nosso primeiro zine "Shit Noise" em abri de 1991, depois da tentativa frustrada de montar uma banda de hardcore, a Gritos Melancólicos.
Lancei outros zines na sequência, com outro camarada "O Escalpador" zine. Com o tempo vieram outras publicações, além do contato com outras destes impressos artesanais e punks, geralmente.
Atualmente, um pouco mais velho, e para susto de alguns, mantendo o espírito jovem em contraste com a idade, leciono aulas de História na rede pública estadual do estado de São Paulo e vejo os fanzines como uma alternativa e agente potencializador pedagógico, num sistema educacional falido, onde a cultura do faça você mesmo e os recursos de imagens superam as dificuldades das crianças e adolescentes que, entra ano e sai ano, vem mostrando grande dificuldade de aprendizagem e grande defasagem cultural, defasagem esta preservada e mantida devida ao sistema disciplinador e castrador mantido pelas escolas. É possível alcançar resultados positivos tendo os zines como instrumentos pedagógicos, já que estes desenvolvem a criatividade, proporciona o trabalho em equipe e colabora com as capacidades leitora e escritora, e a relação da linguagem escrita e imagética, tudo no esquema, papel, cola e tesoura, mas que fique claro, paciência, bom senso e bom humor são fundamentais para um bom resultado.
"Shit Noise"- Primeiro Zine
Nessa época você morava onde? Você disse que era difícil conseguir material em K7 e Vinil, fale mais um pouco sobre como era isso naquela época;
Renato Lauris Jr. - Residia na época em Agudos, pacata cidade interiorana a quase 400 km da capital paulista. Com o tempo conhecemos uma galera punk da cidade vizinha, cidade maior, Bauru, ai os contatos se estenderam, as afinidades são fodas. Para adquirir materiais naquela época dois fatores, que me lembro, eram essenciais: a paciência, o correio demorava um mês ou mais para entregar nossos pedidos; e uma espécie de rede de solidariedade, muitas vezes vinis comprados em conjunto, e outras vezes de forma individual e quem tinha o material gravava para o resto do pessoal. Ali neste compartilhar os informes, convidar amigos para ouvir som na casa, gravações de fitas K7, e xerox de zines, compreendo o punk, a partir dali, como um movimento, uma ação de união, entre os poucos punks que havia na região.
Vale mencionar também, que era época da abertura política, e é até hilário mencionar, mas um dos veículos que nos apresentou muitas bandas de punk rock e hardcore, que estragou muitos filhos e filhas foi a televisão. Havia um programa chamado Boca Livre, apresentado pelo Kid Vinil, e ele levou muita banda destes gêneros musicais para tocar lá, e o legal era que o programa era ao vivo, todas as segundas-feiras, às 19 horas, matei muita aula pra ver as novidades sonoras. 

A partir daí que você começa a falar sobre a cena punk no zines? Mas não era só sobre punk, o que mais vocês publicavam?
Renato Lauris Jr. - Em 1989 ou 1990, não me lembro ao certo, a Gritos Melancólicos não saiu do ensaio. Queríamos participar, estar envolvidos, colaborar com a cena punk “caipira”, depois disto vimos que uma forma de colaborar seria com a confecção de um zine, em abril de 1991, quando lançamos o "Shit Noise" zine. Nele expressávamos nossa insatisfação com a cidade em que vivíamos, fazíamos uma crítica ao governo Collor e apresentávamos as bandas que curtíamos, ali colocamos um texto sobre o Ramones e um histórico da banda sueca Crude SS (extraída do W. C. zine), além do release da banda de thrash metal local Expiring e um histórico, release (esperançoso) do Gritos Melancólicos. As cópias deste zine foram realizadas por um amigo que conseguiu burlar o escritório em que trabalhava e tirou várias cópias para nós que distribuímos na cidade e para alguns amigos de outras localidades. Este zine, infelizmente, ficou no primeiro número.
Já "O Escalpador" zine, mesclava bandas punks e metal, além de conter poesias, contos, e ilustrações. O que acho legal ao lembrar destes dois zines e ver uma evolução individual e coletiva,, houve uma melhora nos escritos, na organização da produção e até mesmo um evoluir nas idéias, onde incluíamos aquilo que estávamos lendo, deixando as ralas divagações e estas se tornando mais objetivas.

Então você entrou na faculdade. Isso foi em que ano? O que rolou a partir daí?
Renato Lauris Jr. - Em 1998 entrei na Unesp, na cidade de Assis, para cursar a faculdade de História. Ali conclui a graduação e anos depois fiz o mestrado, escrevendo a dissertação “José Oiticica: Reflexões e Vivências de um Anarquista”. 
Entrei na faculdade velho com 24 anos, nesta época graças aos fanzines, principalmente, e as letras panfletárias do punk, estava engatinhando no anarquismo. Como morava em uma cidade interiorana o material bibliográfico sobre anarquismo era bem escasso, então os fanzines foram as principais leituras tratando deste tema até então. 
Ali conheci um pessoal, poucos, mas estavam lá também interessados no anarquismo e insatisfeitos com a política estudantil na época numa disputa entra molecada do PT e do PSTU. Iniciamos um grupo de estudos, o Nelen (Núcleo de Estudos Libertários Espelho Negro), onde realizamos algumas ações, mas que por razões diversas teve vida curta. Alguns anos depois, se não me engano em 2000, formamos um novo coletivo o Canto Libertário, que realizou muitas ações legais, mas infelizmente também teve vida efêmera.
Mas na faculdade ainda, conheci uma galera que lia e discutia sobre literatura marginal, beatnicks, me aproximei e em meio a bebidas, leituras, cigarros e ideias, fizemos algumas publicações zineiras como o “Conheceu o Diabo e Visitou o Inferno”, “Com o Diabo no Corpo” e “Do Fundo da Gaveta”, foram experiências legais e agradáveis. Além destas publicações participávamos de saraus, o que era muito louco, enquanto o pessoal selecionava poemas do Fernando Pessoa, Manuel Bandeira entre outros, nós líamos nossos poemas autorais e até lançamos um manifesto, escrito pelo amigo Laerte, o “Manifesto do Desencanismo”, que eu li num sarau, este manifesto era simplesmente isto (o texto): “Estão lançadas as bases do desencanismo, ao tentar escrevê-las, desencanei!”, o mais louco foi um professor de psicologia que pensou em escrever uma tese sobre este movimento. (hahahaha)
  
Foi aí seu despertar para o anarquismo?
Renato Lauris Jr. - Eu tinha um conhecimento raso sobre o anarquismo através, principalmente, dos fanzines, que eu classifico como o engatinhar do anarquismo, na universidade no contato com outras pessoas interessadas no tema, uma vasta bibliografia que havia na biblioteca universitária, o encontro com novos e velhos militantes e o acesso a um acervo que se encontra no CEDAP (Centro de Documentação e Apoio A pesquisa) que existe naquele campus universitário, minha identificação com o anarquismo e o interesse por sua filosofia, história e lutas se desenvolveu e se mantém até hoje.
Costumo dizer que o punk foi minha primeira escola, a cultura do faça você mesmo, as rodas de conversas, a confecção de fanzines, a leitura de zines diversos, verdadeiros formadores de opinião e construtores de mentes críticas, escola esta que digo, que os alunos produzem seu próprio material de estudo e compartilham, minha segunda escola foi o encontro com velhos sindicalistas, que mesmo não sendo anarquistas, sempre cobraram de mim e de outros amigos iniciativas, posturas e atitudes, e na universidade com o vasto material anarquista que tive acesso e as pessoas com quem convivi e conheci, as trocas de idéias foram a minha terceira escola, e ainda continuo estudando.

Recentemente você lançou o Sobrevidas, que é em formato de livreto. Qual é a proposta desse projeto?
Renato Lauris Jr. - O SobreVidas classifico como uma revista/zine. É uma publicação que tem sua origem no formato zineiro, mas o acabamento final, feito pelo grande amigo Eduardo Medeiros, da Editora Artesanal Tumulto, um trabalho belíssimo, em que a publicação ficou com a cara de uma revista, mas não poderia abandonar o prazer zineiro de fazê-la, por isso revista/zine.
A proposta do SobreVidas é ser uma publicação que dê voz aos que não tem voz, um diálogo libertário entre entrevistador e entrevistado, entre publicação e leitor. Até então teve três números lançados, tratando através de entrevistas, ou troca de idéias, de questões sociais, de gênero, sexualidade, contracultura, alimentação, educação, etc....
Sobrevidas: Saiba mais aqui!
Você também tem muitas parcerias em projetos de outras pessoas, outros autores, músicos, poetas. Fale um pouco mais sobre isso;
Renato Lauris Jr. - Talvez seja um cara inquieto, a cabeça sempre pensando em algo, o consciente e o inconsciente em intenso agir. Depois que lancei o SobreVidas, veio um lance saudosista e decidi lançar um zine de troca de idéias, entrevistas com bandas undergrounds, mas que não estivessem situadas nos grandes centros. Ai rolou contato e conversações com Cama de Jornal (Vitória da Conquista/BA), Acromo (Agudos/SP), A Phoyce (Guarujá/SP), Horda Punk (União da Vitória/SC) e Autoboneco (Bauru/SP). Esta publicação foi o "Cultura Carcamana" zine, que teve número único, até então.
A convite do amigo Márcio Sno, após uma troca de idéias, participei do zine "Odair Jozine", uma homenagem ao músico Odair José, colaborei com o texto “Odair José, O Subversivo”, foi um trampo legal.
Além disso, junto com o mano Edu Medeiros, da Editora Artesanal Tumulto e o companheiro Rogério Nascimento (também membro da banda C.U.S.P.E.), lançamos o livro “Da Escravidão à Liberdade: A derrocada burguesa e o advento da igualdade social”, do militante anarquista Florentino de Carvalho, cujo livro original é de 1927, este título organizei pensando na elaboração de uma coleção “Escritos Anarquistas no Brasil”, visando re-lançar títulos libertários escritos por militantes anarquistas brasileiros ou que residiram no Brasil no decorrer do século XX, mas infelizmente por motivos econômicos está parado. 
Recentemente lancei o “Discos que F*** Muitas Vidas”, a partir de convites à várias pessoas amigas, companheir@s, organizei uma coletânea de 18 textos, onde a proposta era qual o disco, LP, o som, que fodeu com a vida de cada convidado, este fodeu é o mudar seu comportamento diante os padrões sociais, seja ele estético, cultural, social, político, etc, ou seja, a música como agente de transformação, um trampo que adorei fazer.
Outro dia você me falou sobre um novo projeto, mais ambicioso, de publicar uma enciclopédia do punk nacional. Acredito que seja um trabalho árduo, diário, de intensa pesquisa. De onde surgiu essa idéia e a quantas anda esse projeto?
Renato Lauris Jr. - Então a ideia é através de uma pesquisa, que estou vendo será intensa e extensa, sobre o movimento punk no Brasil, no período de 1977 – 1989, ou seja, os primeiros anos do punk nestas terras tropicais. Creio que este período foi o engatinhar, a adolescência e o entrar na juventude do punk, onde em meio a convergências e divergências, entre a rebeldia e confusões, o movimento punk foi se estruturando e se fragmentando, se organizando politicamente, seja com os anarco punks ou uma ala direitona extrema como os carecas. O movimento punk para mim, como disse foi minha primeira escola, realizar este trabalho é como uma homenagem que faço a este movimento. A leitura de fanzines dentro do período mencionado, a busca de relatos de punks da época ou mesmo posteriores, existe um intenso material em revistas e jornais da época, e recentemente, a partir do final dos anos de 1990 uma intensa bibliografia e publicações acadêmicas sobre o movimento punk, além da publicação de memórias de alguns protagonistas desta história, como Clemente, Sukata (Garotos Podres), João Gordo, junto à documentários, filmes, etc...
A ideia de ser uma enciclopédia, ao qual dei o título provisório de “Uma ‘Quase” Enciclopédia do Punk Brasil – 1977 – 1989”, e de tratar e observar o movimento punk não apenas em suas bandas, mas também a sua essência, por isso estou selecionando alguns termos, bastante mencionado pelos punks nos zines, encartes de LPs e mesmo em suas canções, termos como: união, consciência, drogas, anarquia, bomba nuclear, guerras, ecologia, paz, etc..., isto é lógico dentro do contexto do período estudado. Ainda estou organizando as idéias.
No momento ainda estou no levantamento de dados, fichamentos e entrando em contato com algumas pessoas de diversas partes do país, recebendo materiais e trocando idéias, nisso a internet ajuda pra caramba. Inclusive, se alguém que esteja lendo está entrevista desejar e puder colaborar, entre em contato, ok. (revsobrevidas@gmail.com)

O Brasil está atolado em corrupção em todas as esferas, não se vê movimentação social contra as ações de mudanças na CLT orquestrada pelo (des)governo Temer. Temos dentro do próprio movimento punk e do rock pessoas apoiando idéias de candidatos fascistas/homofóbios/racistas. Estamos sem saída?
Renato Lauris Jr. - Acho que estamos procurando a saída. Quanto a questão de pessoas do próprio movimento punk ou de outras vertentes do underground apoiando ideias de direita ou conservadoras, o que mais me assusta são alguns velhos punks terem uma visão conservadora, postando até mesmo no facebook (local onde podemos ver estas aberrações) apoiando a rota (policia militar de SP, conhecida pela sua extrema truculência) ou mesmo tendo algumas velhas ideias semelhantes aquelas que questionaram em outro momento da história, na real, isto também, me levou a iniciar a pesquisa mencionada acima, são as convergências e divergências do movimento punk. 
Agora quanto movimentação social, há rumores, suspiros e perspectivas, mesmo que ainda pequenas, nas periferias, nas quebradas, mesmo em meio a um fervor conservador, ao qual devemos "agradecer" ao PT por estimular o sonho consumidor, criando novos endividados e tementes de perder seus bens adquiridos nas Casas Bahias, Lojas Cem e outras grandes lojas, com os crediários a se perder de vista, clamando por um policiamento em proteção aos seus lares.
Mas há os rumores de uma minoria desejosa por um outro mundo possível, algo que pode ser percebido nos saraus periféricos, nas organizações de bibliotecas comunitárias, nos cursinhos livres pré-vestiular, nas ocupações, e mesmo na persistência e resistência anarcopunk, como d@s companheir@s do CCS Favela Vila Dalva, em São Paulo, além do sempre ressurgir do anarquismo nos corações jovens, e a permanência de outr@s “velh@s” companheir@s pront@s a receber e caminhar junt@s a estes jovens que vão chegando. 

Com o advento da internet, as pessoas estão lendo menos. Qual o perfil do leitor de um zine no Brasil?
Renato Lauris Jr. - Então o público leitor dos zines é bem amplo, existem as pessoas como eu, que são admiradores e leitores fanáticos de zines, o que cai na mão lêem., Tem a galera que curte mais os HQs, tem uma turma que utiliza os zines como suporte para arte, desenhos, fotografias, até mesmo transformam objetos em zines (cápsulas, caixas, etc). tem os admiradores de microzines, enfim o público zineiro é amplo, os zines na real são uma puta resistência leitora. Inclusive um outro projeto que estou elaborando, este junto com Bruna, minha companheira, é o “Barricadas de Papel”, que vem deste lance do zine ser um instrumento de resistência na procura e manutenção de leiotr@s. A idéia é organizar uma zineteca física e virtual, uma gráfica para publicações de zines, livretos, e isto juntamente com ações pedagógicas como oficinas, elaboração coletivo de zines, leituras comentadas, contadores de história etc...Projeto este que estávamos pensando iniciar neste segundo semestre, mas deixar pra rolar mesmo no próximo ano. Neste momento estou catalogando nossa pequena coleção de zines para disponibilizar ao público.
Renato e sua companheira Bruna.
Aproveito a brecha pra mencionar que os zines enquanto objeto de pesquisa tem muito a nos dizer, desde o comportamento e pensamento juvenil, a divulgação de bandas, difusão política, torna-se uma importante ferramenta de diálogo, principalmente, entre os jovens, compartilhando gostos musicais, e informações sobre temas pertinentes a este público, e a um público mais velho também, assim como suas várias formas que podem servir de modelos para o uso pedagógico d@s docentes.
Vale mencionar que a internet, em certo momento, se torna castradora, tornando a criatividade em algo superficial, mecânico, muito fácil.
A confecção, produção de um zine e mesmo o contato com este tipo de impressão trabalha com a imaginação na velha brincadeira, cola, papel e tesoura.

Agradeço pela atenção, o espaço é seu, para falar o que quiser;
Renato Lauris Jr. - Nem, eu que agradeço pela oportunidade! Valeu mesmo mano, e espero ter ficado claro a troca de idéias. Seguimos a caminhada, e aqui fico no aguardo do seu livro e dos novos sons do Cama de Jornal.
E aos leitor@s, se liguem, saiam um pouco da frente das telas e zinem-se!
CONTATO: revsobrevidas@gmail.com

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Assista João Brandão adere ao punk-Curta baseado em conto de Drummond

No curta João Brandão adere ao punk, do conto homônimo de Carlos Drummond de Andrade, João Brandão é um estudioso de fenômenos sociais, que dedica-se no momento a pesquisa do punk. Ramiro Grossero, diretor, nascido no Gama-DF, é arte-educador e usa a vivência da sala de aula e das ruas para dirigir seu primeiro curta-metragem. Grilo, como o diretor é mais conhecido no underground punk, participa de todas as etapas da produção, criando as situações que dão forma à obra de arte.
No elenco, fazendo o papel de Carlos Drummond de Andrade, está o punk paulista Ariel, vocalista das bandas Restos de Nada e Invasores de Cérebros, dois pilares do punk nacional.
O poeta e ativista cultural brasiliense J. Pingo, falecido logo após as gravações, também integra o elenco, fazendo o papel de João Brandão, personagem central da trama. Os figurantes do curta são conhecidos na cena punk do Distrito Federal, entre os quais, integrantes das bandas The Insult, Mackacongs 2099, ARD, Marmitex S.A. e Canibais, além do cartunista Broba, ex-vocalista e letrista da banda Cegos, Surdos e Mudos, que também fez ilustrações para o filme.
Segundo Grilo, diretor do filme; "A lucidez do poeta ao analisar o tema em página do "Jornal do Brasil" no ano de 1983, para o qual escrevia uma coluna semanal, é surpreendente pela sensibilidade com que, o também cronista , desenrola um diálogo com o personagem João Brandão a respeito do pouco compreendido e até mesmo mal falado movimento." E Grilo acrescenta que "ao fim da leitura do conto e xerocado as páginas deste "Fio de prosa" fui ao encontro do meu amigo Jota Pingo, ator, diretor teatral e agitador cultural, um ícone de Brasília com uma biografia respeitável e membro de uma família de artistas, para conversar sobre cinema e coisas afins. Estando muito empolgado com a idéia da realização de uma adaptação em forma de curta metragem e promovendo na casa do "Pingão" muitos shows de punk rock, heavy metal e outro gêneros musicais no então Cine teatro Grande Otelo, que ficava no Mercado Cultural Piloto, Jardim Botânico - DF, e em meio a mostras de cinema e teatro, exposições de artes e festas que aconteciam no local, percebia que tudo estava ali e era só começar a dirigir o curta."
Ainda segundo o diretor, "Rita Andrade entrou em contato com os representantes do poeta e contando nossa história, conseguiu a liberação dos direitos do conto. Mas um grande cara estava para se juntar a essa trupe cultural. Em 2011, em show da lendária banda punk "Olho Seco" na C. T. Grande Otelo, recebemos a visita do Ariel Invasor, figuraça da cultura paulistana, conhecido por ser o vocalista da primeira banda punk rock do Brasil, Resto de Nada (1978), e na ocasião se hospedando na minha casa, mostrei o conto a ele. A identificação foi total e não pude deixar de notar que vestindo-o com roupa sociais e óculos ficaria um ótimo Carlos Drummond. Ariel é um desses caras com forte visão cultural e tem facilidade com a palavra, não se fez de rogado e topou participar do projeto."